Jovem Larga Tudo para morar em Nova York e viver de arte

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Hoje, no Jovem Larga Tudo, trago a história do Vinicius Carvalho. Nos conhecemos em São Paulo e nos trombamos novamente em Nova York no ano passado: ele chegou para estudar na mesma semana em que eu fui a passeio.

Mas ele está lá até hoje e topou contar aqui no blog sua trajetória vivendo na cidade dos sonhos de muita gente (com certeza, a minha!). Além disso, ele está em NY trabalhando na área de teatro musical – confesso, mais um sonho que compartilhamos. É uma história que mostra como a sua rota pode fazer um monte de curvas, mas acaba te levando para o destino certo.

Espero que seja inspirador! 🙂

Faz um ano e dois meses que cheguei em Nova York.

Nesse tempo, descobri uma coisa muito importante: os planos que a gente tem podem mudar de forma muito drástica, mas isso não significa sair da tua rota. Às vezes, é por outro caminho e a gente não tem nem ideia disso.

Eu vim para Nova York para estudar dança. Fiz carreira no Brasil sempre na TV, mas a minha meta nos últimos anos era teatro musical. Sou ator e cantor e, desde pequeno, essas coisas estiveram na minha vida de alguma maneira.

A parte de atuação e canto eu já tinha bem resolvidas, mas sentia que faltava a dança; por não dançar, tinha algumas audições que eu nem podia participar. Mas não vim aqui para virar bailarino; teria que me dedicar a vida toda para isso e, quando cheguei, já tinha 34 anos. Queria para ter uma base melhor.

Então, vim em um programa programa internacional para estudantes do Broadway Dance Center, que fica perto da Times Square, no olho do furacão dos musicais. A minha ideia era ficar seis meses: cheguei um mês antes do curso, iria embora um mês depois. O curso era de quatro meses, muito intenso, muito puxado e muito completo. Então, voltaria para continuar fazendo audições no Brasil.

Lá pelo meio do curso, os planos começaram a mudar. Conheci outras pessoas, outros artistas. Percebi como a gente fica imerso na arte em Nova York e como isso te transforma como artista. No Brasil, a gente tem que buscar a arte o tempo inteiro e, às vezes, é um preço muito alto – literalmente. É muito difícil viver só de arte no Brasil, só de subir no palco. A gente pode até estar envolvido com arte, mas precisa fazer muitas outras coisas, ou até mesmo trabalhar em outra área.

E, morando aqui, percebi como isso te derruba como artista. Para viver de arte, precisa estar imerso, de cabeça. Senão, você está colocando técnica, mas não se tornando realmente artista.

O primeiro choque que tive quando vi artistas americanos foi esse. E não é complexo de vira lata; a questão é que eles têm uma quantidade absurda de informação, de arte, desde pequeno, na escola. No Brasil, não temos acesso a nada disso: pra buscar ser artista tem que ter muito dinheiro; falando em teatro musical, então, mais ainda. E, no nosso país, as artes trabalham separadas, então você busca num lugar o canto, no outro a dança e, num terceiro, a atuação. E nada disso vem da formação escolar. Fora a questão do abastecimento cultural, intelectual, que é ainda outra história.

Como decidi ficar em NY

Então, com quatro meses de Nova York, percebi que meu prazo aqui não tinha vencido.

Além do que evoluí como artista, também passei a morar sozinho, em outro país, numa cidade onde não conhecia ninguém. Em casa, sempre tive uma condição muito boa, mas quis deixar minha família longe de qualquer participação financeira porque sentia que eles já tinham feito muito por mim. E, claro, fazia parte do meu plano fazer me virar sozinho aqui. É só quando a gente sai da zona de conforto que realmente muda.

Tinha ainda uma reserva de dinheiro no Brasil, então decidi ficar. Não vim para NY para fazer dinheiro; vim para continuar estudando e me desenvolvendo como artista. A ideia de morar nos EUA só para pagar contas não era o que eu queria.

Conforme fui conhecendo mais gente, surgiram oportunidades de freelancer, e não precisei mexer muito no dinheiro que deixei no Brasil. Já tinha trabalhado em bar e tinha alguma experiência com fotografia, mas como hobby; aqui, comecei a me especializar em retratos e fotos de comidas para restaurantes e bares.

Um dos diferenciais dos EUA é que você pode conseguir um trabalho que não te prende o dia todo e dá para fazer uma grana legal. No Brasil, para ganhar o mesmo tanto que eu ganhava aqui trabalhando três dias na semana, uma média de seis horas por dia, precisaria de seis dias na semana, num emprego fixo, que me prenderia num escritório… E, sendo artista, é muitas vezes o que a gente precisa fazer.

Fazendo arte em NY

Foi graças a esses trabalhos como freelancer que acabei conhecendo as pessoas certas – também artistas – para o projeto que desenvolvo hoje na área artística. É para a escola Brazil Ahead, que ensina vários idiomas, inclusive português, normalmente para filhos de estrangeiros que estão perdendo o contato com a língua.

A dona da escola me chamou para falar sobre uma montagem teatral que eles pretendiam fazer no Consulado do Brasil em NY. Essa peça foi encenada pelos professores e dirigida por mim. O resultado foi um sucesso tão grande que acabei sendo convidado para desenvolver outros projetos com eles; dessa vez, com os alunos.

A escola me deu toda a orientação e supervisão pedagógica para cada turma. Minha tarefa era dar uma visão mais lúdica e teatral para o conteúdo, com base no esqueleto que eles me forneceram do que deveria ser abordado em cada encontro.

E, logo de cara, peguei uma turma difícil: dez crianças, entre seis e oito anos, para as quais o antigo professor tinha desistido de dar aula! Pensei “preciso ser mais doido que elas”… Quase morri de cansaço, mas deu certo: as alunos, os pais e a direção gostaram tanto que, logo depois, comecei um projeto de teatro musical para crianças, o Criançando.

A ideia era que fosse mais uma plataforma para que elas aprendessem e praticassem o português sem nem perceberem que estão falando outro idioma. Agora, estamos indo para a segunda turma.

Nesse meio tempo, depois que fizemos o Criançando, também organizamos uma leitura de um texto adaptado para crianças da Ruth Rocha no Consulado, com pessoas também da ONU, para falar de Direitos Humanos. Ele foi tão bem recebido que virou um projeto para o ano que vem, com apoio do Consulado brasileiro. Será uma montagem de teatro musical bilíngue que dá a visão das crianças sobre Direitos Humanos. É totalmente sem fins lucrativos e com um viés social bem forte, porque a intenção é ter apresentá-lo em escolas de bairros carentes. Futuramente, também quero trabalhar com crianças de origem hispânica, com uma montagem em espanhol e inglês.

E o palco?

Paralelamente a esses projetos voltados para crianças, também consegui voltar para o palco: comecei a cantar em uma banda de rock. Temos alguns shows agendados em Manhattan e acabamos de ser convidados para o Brazilian Day de Boston, que é o segundo maior dos EUA, atrás só do de Nova York.

Com tudo isso, estou no processo de aplicação para o visto de artista. Para isso, é fundamental mostrar os projetos que já fiz e um cronograma dos que ainda vou fazer, provando que tenho experiência, que tem pessoas interessadas na minha arte e que eu contribuo, por meio dela, para causar um impacto positivo aqui.

Então, poderei ficar um bom tempo trabalhando só com teatro, porque o visto permite só trabalhar na área artística. Depois, pretendo levar alguma coisa para o Brasil, para ajudar a desenvolver o nosso cenário também.

Em pouco mais de um ano em Nova York, minha vida mudou totalmente e eu devo ter amadurecido uns cinco anos só nesse tempo. A maior lição que eu tive até agora por aqui é que a gente tem que estar aberto para a vida: às vezes tem um desvio no nosso caminho, mas ele sempre está certo.

Vinicius Carvalho é ator e cantor, mas você talvez o reconheça mais facilmente da TV. Acompanhe seu dia a dia de artista em NY no seu Instagram pessoal ou no perfil dedicado às suas fotografias feitas na cidade.

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  • Sobre

Giovana Penatti

Oi 🙂 Meu nome é Giovana, sou jornalista e criei o blog para falar de viagens, da vida viajando, da falta que faz viajar! Originalmente, sou de Piracicaba-SP. Hoje, moro na Itália. Sou formada em jornalismo, tenho um cachorro chamado Bernardo, gosto de pizza e roo unhas o tempo todo. Para saber mais sobre o blog e entrar em contato, clique aqui!

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