O que são as placas com nomes nas calçadas na Europa?

Se você já esteve na Europa, pode ter visto placas douradas nas calçadas. Elas chamam Stolpersteine e homenageiam vítimas do Holocausto.

Se você já esteve na Europa, talvez tenha reparado que, em alguns bairros, há plaquinhas douradas no chão com os nomes de pessoas. Mas eu não ficaria surpresa se você nunca reparou; eu mesma só vi quando um casal de amigos me mostrou em Veneza e me contou a história.

Essas placas podem passar despercebidas porque, quando a gente anda numa cidade que está visitando, provavelmente não faz isso olhando para o chão. Além disso, nas ruas que conservam o calçamento antigo, o tamanho as lajotas pode ser bem parecido com os delas. E, por terem latão na superfície, elas escurecem e realmente se fundem com a cor do pavimento.

No entanto, agora que você já sabe que existem, aposto que vai vê-las por toda parte na sua próxima viagem. E vai saber contar para seus companheiros o que são.

O que são as placas douradas pelo chão na Europa

Mas já aviso que a história não é das melhores. Pelo contrário: é, na verdade, um soco no estômago, ainda mais quando você vê pessoalmente.

Stolpersteine em Veneza
Primeira vez que vi as Stolpersteine, em Veneza

Essas placas se chamam Stolpersteine, que minha amiga Natália Santucci , que mora em Berlim, traduziu como Pedras do Tropeço. O projeto foi criado nos anos 90 pelo artista alemão Gunter Demnig , e é uma espécie de instalação artística que relembra e homenageia as vítimas do Holocausto que foram perseguidas, sequestradas e assassinadas por nazistas na Segunda Guerra Mundial. Porém, também há placas que homenageiam sobreviventes; afinal, a intenção não é que sejam lápides, mas ajudem a lembrar que ali mesmo, onde você está passando, alguém que tinha uma vida completamente normal, saía por essa porta e pisava onde você está pisando agora, um dia foi capturada pelo regime nazista.

Na verdade, as Stolpersteine não são placas, mas blocos de concreto de 10×10 com essa chapa de latão na parte superior, onde se lê o nome da pessoa, sua data de nascimento, data de morte e o que aconteceu com ela. Eles ficam não apenas na frente das casas das pessoas, mas de outros lugares que elas frequentavam, como seus trabalhos ou templos.

O projeto é relativamente colaborativo: há diversos grupos que pesquisam os lugares onde essas pessoas viveram e articulam a instalação das pedras. Você também pode fazer sua pesquisa e sugerir um lugar, e o site do projeto fornece alguns recursos para isso. No entanto, há uma boa fila de espera: as próximas instalações devem ser feitas só em 2022.

Onde encontrar as Stolpersteine

A cidade onde há mais Stolpersteine é Berlim aqui, dá para ver um mapa com a localização de todas.

No total, já existem mais de 75 mil pedras instaladas em mais de 2 mil lugares, especialmente na Europa. Você poderá encontrá-las em 26 países, incluindo na Argentina. Lá, a instalação é, na verdade, uma Stolperschwelle, uma placa maior, para situações em que não é possível listar o nome de todas as vítimas.

Jt wob (Diskussion) 15:52, 26. Jun. 2016 (CEST), Copyrighted free use, via Wikimedia Commons
A Stolperschwelle é assim (via Wikimedia Commons)

As que vi ficam em Veneza e em Pádua. Nas duas cidades, você pode encontrá-las no Ghetto Ebraico. Em Pádua, sei o endereço certinho: Via S. Martino e Solferino, ao lado do Spazio Biosfera. Não encontrei nenhuma foto enquanto fazia o post, mas tenho certeza que essa foto existe! Quando encontrar, atualizo.

Stolpersteine em Berlim

E, para terminar, algumas das fotos de placas em Berlim, que a Natália mandou para eu usar no post (obrigada! <3):

“É do dia que a gente descobriu as pedrinhas, em junho de 2017. A gente morava num bairro chamado Wilmersdorf, onde, no início do século XX, existiam muitos judeus. Não raramente, familiares deixam homenagens nas pedrinhas.”
“Fica perto da minha casa, e foi colocada depois que a gente já morava aqui no Mitte (bairro), onde a população de judeus era bem grande também. O homem homenageado, pelo que eu descobri, era um ativista contra o regime.”
“Essas formam uma árvore genealógica. Fiquei muito impressionada por causa da criancinha de 2 anos”
“Essa é de uma situação em que muitos vizinhos foram levados.”

A última foto, aliás, mostra um das intenções do projeto: ao colocar um nome por placa, ele individualiza as vítimas; em vez de um número, são pessoas com nome, sobrenome, data de nascimento e de morte, que viveram exatamente ali. Assim, evita que sejam apagadas, que era a intenção dos nazistas. Além disso, há uma simbologia bonita no ato de você ter que se abaixar para ler, como se fosse uma reverência respeitosa.

Da próxima vez que estiver na Europa, olhe também para o chão: pode haver histórias não-contadas ali.

Você já viu alguma dessas placas? Se sim, me conta nos comentários onde foi!

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Giovana Penatti

Giovana Penatti

Giovana tem 30 anos e é jornalista. Mal pode esperar pela terça-feira à tarde na qual estará tomando um drink numa praia no Mar Mediterrâneo rindo muito de tudo isso. Enquanto isso, escreve sobre viagem e morar no exterior por aqui!