Afrescos feios e astrologia no Palazzo Della Ragione, em Pádua

Aproveitando o mês de museus grátis em Pádua, fomos conhecer o Palazzo Della Ragione, uma construção que fica entre a Piazza Della Frutta e a Piazza Delle Erbe e que, além disso, eu sabia outras duas coisas: ele foi, em algum momento, a sede do poder político e judicial na cidade, e tem uns afrescos bem bonitos na varanda, que podem ser vistos do lado de fora mesmo.

O ingresso, normalmente, custa 7 euros. Mas, antes mesmo de chegar à bilheteria para perguntar sobre como funcionava a admissão, uma funcionária chegou com dois ingressos na mão. E pronto: estávamos dentro.

O Palazzo Della Ragione também é conhecido como Il Salone, e é basicamente um salãozão de 82 x 27 metros que, hoje, é usado para exposições culturais. Ele foi construído em 1218 e, entre 1306 e 1308, ficou do jeito que está agora, sem divisões internas.

Logo ao entrar, a primeira coisa que você nota é que, de fato, o negócio é grande mesmo. E, como não há nenhuma exposição agora, talvez pareça até maior. O teto de madeira, inspirado no casco de um navio, faz com que uma das maiores (há sites que dizem que é aaaaa maior) sala suspensa da Europa fique ainda mais imponente.

De um lado, se vê um pêndulo de Foucault, experimento que comprova o movimento de rotação da Terra e reforça a conexão entre Pádua e a ciência (particularmente, acho que existem formas mais interessantes de fazer isso – como você já sabe, Galileu foi professor aqui. Foucault, até onde pesquisei, nunca veio). Do outro, um cavalo de madeira gigantesco, que é uma reprodução de um monumento esculpido por Donatello.

Mas o que mais chama a atenção é, sem dúvidas, a decoração com afrescos em todo o redor da sala. São 333 e são, provavelmente, os mais feios que eu vi na vida.

À primeira vista, são várias imagens de cenas, animais e pessoas que não fazem muito sentido. Tem muitos leões de São Marco, símbolo da República do Veneto, e, sério: são tão feios que é difícil escolher o mais feio deles.

Depois, em um dos (poucos) tótens espalhados pela sala, pudemos entender um pouco mais sobre os afrescos. Eles se baseiam nos símbolos do zodíaco e representam a passagem do tempo e como tudo isso influencia no comportamento dos homens. Por isso, além de atividades mundanas, também são visíveis afrescos que falam do caráter – sempre alinhados com o signo da área.

Para quem quem é louca dos signos, deve ser realmente divertido observar e encontrar cada um. Para nós, a colinha dos totens informativos valeu: tirei fotos das explicações e saí procurando pela sala. Por exemplo, no meu signo, Peixes, o que se vê é:

Clica que aumenta!
  • Personificação do mês de fevereiro: segunda linha, primeiro afresco à esquerda
  • Símbolo do zodíaco: ao centro
  • Planeta Júpiter: dois afrescos à direita do símbolo do zodíaco
  • Características do signo – autoridade, caridade, mulher com medo de um leão (????): afresco ao lado da personificação do mês, na diagonal inferior direita a esse e os próximos dois do lado direito

Entendi? Sinceramente, não. Mas é interessante e divertido caçar os símbolos pela sala, e isso dá mais sentido à visita: achei o Palazzo della Ragione pouco didático e convidativo, com as informações concentradas totalmente nos tótens na sala, e não próximas do que você está vendo.

Ou seja: ou você vê tudo nos tótens e depois tenta encontrar pela saia, ou fica de vai-vem de um ponto que te despertou curiosidade pra um tóten pra ver o que é.

Um exemplo muito da falta de contexto é o tal cavalão de madeira que mencionei, que é muito lindo e imponente, mas é… um cavalão de madeira (com uma riqueza de certos detalhes que chega a ser, hum, desconcertante).

Outro, mais interessante, é a Pietra del Vituperio, uma pedra em formato de cálice que fica num canto da sala com uma placa que tem apenas o seu nome. Cabe a você descobrir que, nos tempos medievais e até 1600, essa pedra recebia três batidas das nádegas nuas de pessoas endividadas que, enquanto batiam a bunda nela, diziam que renunciavam a seus bens em favor de seus credores.

Antes que você ache que eu tô viajando, te garanto: eu não conseguiria inventar uma coisa dessas sozinha.

Saindo do Salone, há uma grande varanda que dá uma visão de cima da Piazza Delle Erbe, com afrescos floridos que decoram o teto e são bonitos de verdade.

Por um ingresso de 7 euros no preço total, acho que é um passeio bem salgado para o que você vê lá dentro. Convém esperar alguma exposição e ver as duas coisas ao mesmo tempo. Ou, então, optar por uma visita alternativa: por 4 euros, você pode agendar uma visita guiada às ruínas subterrâneas do Palazzo della Ragione, que me parece bem mais interessante.

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Giovana Penatti

Giovana Penatti

Giovana tem 30 anos e é jornalista. Mal pode esperar pela terça-feira à tarde na qual estará tomando um drink numa praia no Mar Mediterrâneo rindo muito de tudo isso. Enquanto isso, escreve sobre viagem e morar no exterior por aqui!