Em Florenca, se respira arte. E se paga para respirar.

Em Florença, se respira arte. E se paga para respirar.

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De acordo com a Unesco, a Itália é lar de 60% das obras de arte mais importantes do mundo e metade delas está em Florença. Há, literalmente, arte em todos os cantos: seja nos detalhes arquitetônicos das fachadas ou nos afrescos, telas e esculturas que podem ser vistas gratuitamente ao visitar diversos prédios, sejam eles dedicados à arte ou não.

Não é por acaso que a cidade concentra tantas obras clássicas. Florença se tornou o berço da Renascença pelos incentivos à produção artística feitos pelos mecenas. Entre os mais conhecidos, estão os Sforza, os Pazzi, os Medici e até Papas. Eles encomendavam obras de arte e financiavam a produção de artistas como Michelangelo, Rafael, Leonardo, Donatello e outros nomes, que não acabaram batizando Tartarugas Ninja. De quebra, as famílias também usavam essas obras para demonstrar seu poder.

Basílica de San Lorenzo, financiada pelos Medici

Por isso, é impossível separar a origem da arte florentina da elite. Não fosse o dinheiro que essa forma de financiamento injetou na arte, a cidade não seria, hoje, a casa de muitas das obras mais famosas do mundo – e, por isso, o destino de milhares de turistas de todo o mundo.

Mas a ideia de que arte é para quem pode pagar não ficou no século XIV. Apesar da enorme coleção de pinturas, afrescos e esculturas que a cidade tem espalhada por diversos museus, é necessário desembolsar uma boa quantidade de euros para vê-las.

AFP PHOTO / ALBERTO PIZZOLI

Visitar a Galleria dell’Accademia, onde está a escultura de David, de Michelangelo, custa 16 euros. A Galleria degli Uffizi, onde está o Nascimento da Vênus, de Boticelli, mais 16. Uma das opções mais baratas, a Basílica de Santa Croce (onde Stendhal ficou tão surpreso com a beleza dos afrescos de Giotto que registrou a sensação que, mais tarde, ficou conhecida como Síndrome de Stendhal), custa 8 euros. O Duomo de Florença, obra-prima de Bruneschelli, tem o ingresso por 18 euros.

Apenas para visitar os museus e obras que comentei, que estão na lista dos mais famosos de Florença, é necessário desembolsar 56 euros, uma quantia que não é tranquila nem para quem ganha em euro; imagine para quem vem de países com moedas menos valorizadas, como nós do Brasil. Em família, então, esse tour cultural cheira a falência, mesmo com os valores reduzidos para crianças!

Sendo alguém que viaja sempre com as moedas contadinhas, meus sentimentos em relação a Florença são mistos.

De um lado, é uma cidade que realmente te dá a impressão de estar respirando arte. Há galerias e ateliês em todos os cantos; delicadezas chamam a atenção em esculturas nas fachadas dos prédios e pinturas, a maior parte sacras, no centro histórico; esculturas históricas e réplicas são o ar da graça, de graça, na Piazza Della Signoria; joalheiros, pintores, restauradores, artesãos, pessoas que de alguma forma vivem da arte não poderiam estar em nenhum outro lugar que não Florença.

Perseu com a Cabeça da Medusa de Benvenuto Cellini na Piazza Della Signoria

Ao mesmo tempo, se é possível respirar arte em Florença, lá se paga para respirar. Apesar de ser um tanto surpreendente ver no meio da cidade O Rapto das Sabinas de Giambologna ou encontrar o auto-retrato de Benvenuto Cellini na estátua de Perseu com a Cabeça da Medusa, as obras-primas de Florença não estão disponíveis para todos.

A sensação que Florença me deixou ao ir embora foi de uma leve frustração, como se eu tivesse apenas experimentado a versão demo de um jogo que parecia ser incrível, ou atingido um paywall ao começar a ler um texto muito antes de chegar à conclusão. E, pessoalmente, não acho que deveria ser assim.

Sei que é caro manter museus abertos (só a limpeza do David custa 20 mil euros por ano), que moradores da cidade não pagam entrada em vários, há diversas modalidades de descontos e que os ingressos pagos por turistas – que, definitivamente, são os que mais visitam esses lugares – são importantes para que as obras sejam preservadas.

Mas, por quase 20 euros cada visita, a impressão que tive foi de que as obras de arte mais famosas de Florença e que são responsáveis por levar milhões de turistas à cidade todos os anos continuam onde foram criadas: um lugar que só é acessível para quem pode pagar.

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Giovana Penatti

Oi 🙂 Meu nome é Giovana, sou jornalista e criei o Beijo e Ciao para falar sobre viagens: dicas de passeios, lugares incríveis, experiências transformadoras e as dores e alegrias de morar fora! Originalmente, sou de Piracicaba-SP. Hoje, moro na Itália. Para saber mais sobre o blog e entrar em contato, clique aqui!

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