O segundo lockdown da minha vida, na Inglaterra

Pode-se dizer que essa não foi uma semana de notícias boas por aqui. Comecei a segunda-feira me sentindo bastante indisposta. “Indisposta”; eu estava febril e com uma coceira esquisita na garganta que me fazia tossir de leve. Terminei lendo notícias do segundo lockdown, que eles estão chamando de “tier 4” por aqui.

“Peguei essa porra”, pensei comigo logo que acordei na segunda. Tomei um remédio pra febre, que baixou rápido, e não saí do quarto a não ser para o essencial – comer e fazer xixi. E sempre de máscara. Separei uma página do caderno para anotar a temperatura hora a hora, e assim fiz o dia todo. Também descobri onde poderia fazer o teste e marquei no primeiro horário disponível: terça-feira, oito da manhã.

Pelo menos estava uma manhã bem bonita

Novamente, acordei febril. Tomei um remédio e fui, a pé, até o local do teste. Eu não sou uma pessoa sedentária: estava correndo três ou quatro vezes por semana, me alimento bem. Dificilmente fico sem fôlego.

Mas essa caminhada, que deveria ser de meia hora, demorou uns quarenta minutos. Talvez fosse o fato de eu ter acordado 15 minutos antes e ainda estar meio adormecida, ou o psicológico me dizendo que eu estava com o mal do ano, ou o medo de confirmar essa suspeita, ou o fato de estar ainda febril e indisposta… Mas caminhei devagar. E eu sempre ando rápido demais.

O lugar parecia uma tenda médica daquelas que vimos em filmes de guerra. Peguei um kit na entrada, passado por uma pessoa que estava atrás de um plástico usando uma roupa de proteção. Entrei na tenda, que tinha várias separações. Em cada uma delas, havia uma pessoa, uma mesinha com um espelho e uma cadeira.

Eu mesma esfreguei o cotonetão nas minhas amídalas e o enfiei no nariz, com as orientações de um homem que teve que repetir algumas vezes cada passo. Ele estava muito longe de mim, de máscara e ainda não me acostumei totalmente com o sotaque britânico. Mas, graças à paciência dele, consegui segurar o vômito ao esfregar minhas amídalas por 10 segundos cada uma, entreguei o kit e me preparei para enfrentar três dias de espera pelo resultado.

Foi, provavelmente, a última vez que saí de casa neste ano.

Tier 4 na Inglaterra: como é o lockdown

No sábado, os planos de todos os ingleses mudaram. Inicialmente, aconteceria um relaxamento nas regras para que as pessoas passassem o Natal juntas (se quiser saber minha opinião: uma tragédia). Mas, com um aumento nos casos de covid no país e a descoberta de que o vírus sofreu uma mutação na Inglaterra, isso mudou.

Em vez de regras mais brandas, o que aconteceu foi o contrário: a Inglaterra está no tier 4, que é, essencialmente, o lockdown. Isto é, ninguém pode sair de casa a não ser por motivos bem específicos, como trabalhos que não podem ser realizados remotamente, fazer compras, assistir aulas ou fazer exercícios. Ninguém de fora da sua casa pode entrar nela, e você só pode se encontrar com uma pessoa que não more com você ao ar livre. Essas resoluções vão, a princípio, até o dia 30 de dezembro.

Pensando agora, é um lockdown bem menos rígido que o que enfrentamos na Itália no começo do ano. Ainda assim, cheio de limitações que, especialmente para um país que já tinha feito planos para o Natal e acreditava que o vírus daria uma folga no feriado.

Para piorar os ânimos, no mesmo sábado, foi anunciada a descoberta de uma mutação no vírus aqui na Inglaterra. É uma variação que o deixa até 70% mais contagioso, o que provavelmente contribuiu muito para a decisão do lockdown.

I’ll be home for Christmas

O resultado do meu teste chegou três dias depois, e já era esperado, pois mais pessoas da minha casa obtiveram o mesmo antes de mim: positivo.

Preenchi um cadastro online bem detalhado sobre os lugares onde estive nos últimos dias, as pessoas que vivem comigo e quem mais eu poderia ter me encontrado recentemente. O aplicativo da NHS (o SUS daqui), assim que finalizei meu cadastro, mostrou uma contagem regressiva de quando acaba meu isolamento: 10 dias do início dos sintomas, ou seja, dia 24 de dezembro, às 23h59. Noite de Natal.

Leia também: Manual de sobrevivência para passar Natal e Ano Novo viajando

Não mudou muita coisa no dia a dia, visto que eu já estava me isolando desde a segunda-feira. A febre passou na terça-feira e não voltou mais. Tive dor de garganta por alguns dias, náusea e dor de cabeça somente uma vez. No entanto, tudo que acontece comigo, considero que é culpa do covid, mesmo sabendo que passei tempo demais sem tomar água ou dormi de boca aberta. Comprei um oxímetro e meço meus sinais vitais várias vezes ao dia; nunca estiveram nada diferente de normais.

Minha visão até…. Sei lá até quando

Mas eu não me sinto nada normal. A pior parte está sendo, sem dúvida nenhuma, a psicológica. O “e se”. A materialização de algo que era somente uma ameaça até a semana passada. O medo e a insegurança que, agora, parece que têm motivo para não irem mais embora.

Todo o tempo que estou acordada, me distraio com qualquer coisa e espero dar a hora de dormir de novo para esquecer que estou com o vírus, porque tudo me lembra isso, o tempo todo: a casa vazia, com todo mundo isolado em seu próprio quarto; a rua, que eu via sempre lotada pela janela, agora está silenciosa; as máscaras penduradas atrás da porta; o bocejo que vem quando a ansiedade me obriga a buscar mais ar; as várias janelas no WhatsApp perguntando como eu estou me sentindo hoje.

Dá praticamente para ver 2021 aparecendo no horizonte, mas essa reta final me deixa com a impressão de que ainda viveremos 2020 por um bom tempo.

Perdão pela negatividade.

Mas, ao mesmo tempo que respondo no WhatsApp que estou bem porque não tenho febre, não me sinto particularmente bem. Não estou tranquila, feliz, “bem” mesmo. Mas sei que não estou sozinha; acho que ninguém se sente bem desde março.

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Giovana Penatti

Giovana Penatti

Giovana tem 31 anos e é jornalista. Mal pode esperar pela terça-feira à tarde na qual estará tomando um drink numa praia no Mar Mediterrâneo rindo muito de tudo isso. Enquanto isso, escreve sobre viagem e morar no exterior por aqui!