1600 motivos para se apaixonar por Veneza

Veneza fez 1600 anos nesta semana, e, se parar para fazer a lista, tem tudo isso de motivos para amar a cidade italiana.

Antes de começar, já vou te frustrar: não tenho 1600 motivos para amar Veneza. Eles provavelmente existem, mas não vou listá-los. Este post é uma declaração de amor à cidade, que completou 1600 anos na última quinta-feira.

Eu sou uma pessoa romântica do jeito errado. Sou apegada a lugares, me apaixono por cidades, tanto que imagino vidas que nunca terei lá. O que todo mundo faz com os dates no Tinder, eu faço com cada cidade que conheço. E sofro, claro, cada despedida é um sofrimento.

Me lembro da primeira vez que fui para Veneza. Era um domingo na metade do outono, um daqueles dias que escurece cedo. Eu tinha acabado de chegar na Itália e, na véspera, tinha me mudado para aquela que seria minha casa nos próximos meses. O amigo da moça que me alugou o quarto nos convidou para ir para lá, e achei que seria sensato aproveitar a carona.

Chegamos no que parecia ser fim da tarde, mas provavelmente não era mais de três horas – outono tem dessas. Até chegarmos na Piazza San Marco, o que dá uma caminhada de uns 40 minutos da estação, a noite já estava avançada. A cidade estava cheia, e fomos parando em alguns pontos no caminho, então demoramos. Mas passamos por todos os pontos principais, e esbarramos em muita gente.

Me lembro de não ter ficado particularmente impressionada com nada, e de pensar que Veneza definitivamente não parecia uma cidade. Parecia algo montado. Tipo o Hopi Hari.

Faz de conta que Veneza é uma cidade

No entanto, a cidade onde eu morei nessa época era tão perto de lá que sabia que poderia ir visitar com mais calma no futuro. Então, pesquisei melhor o que ver, marquei no mapa, visitei no Carnaval (estrategicamente, na segunda-feira, que é o dia mais tranquilo), e várias vezes depois. Encontrei amigos, levei meu marido, imaginei que levaria minha família, qualquer pessoa que fosse me visitar na Itália iria para Veneza. E eu iria junto.

Sempre achei uma parada obrigatória, mas um pouco entediante e muito cansativa. Vale ir uma vez, mas não tem mais o que ver depois disso.

(imagina o tamanho da egotrip da pessoa para falar uma coisa dessas de Veneza, a cidade na água, construída pedra por pedra, em cima de troncos e argila, sobre uma lagoa.)

Ainda assim, eu iria toda vez.

A 40 minutos de outro mundo

Veneza estava sempre ali, a 40 minutos. Se não tinha nada para fazer, dava para ir lá passar o dia.

Mas visitar Veneza é um saco: você anda o tempo todo, não tem lá muito o que ver, as ruas são apertadas e parecem um labirinto. É legal de visitar, é um lugar diferente, mas dá para fazer um bate e volta, dois dias são mais que suficientes para ver absolutamente tudo. É uma cidade que todo mundo deveria conhecer na vida; não existe nada no mundo como Veneza.

Fui várias vezes para lá, e só percebi a sorte que tinha de me entediar com a ideia de visitar Veneza quando o lockdown chegou e não pude ir.

Vi, pela internet, a cidade vazia, os canais com peixes, o clima esquentando lá fora com a chegada da primavera e nós dentro de casa. Fiquei obcecada com a cidade vizinha. Nunca tinha ido passar calor lá, e sentir como era toda aquela umidade, aquele ar parado nas vielas. Será que seria assim?

A primeira vez que visitamos Veneza depois do lockdown foi a vez que assumi que Veneza era tudo isso. Não tínhamos “parada obrigatória”, porque já conhecíamos os principais lugares. Simplesmente andamos. Passamos por lugares que provavelmente nunca conseguiríamos encontrar de novo.

Não sei dizer um único acontecimento extraordinário desse dia; foi completamente comum. Ainda assim, foi a vez que entendi como eu queria conhecer Veneza: não era seguindo placas até a ponte Rialto, depois a Piazza San Marco e terminar na Ponte dos Suspiros. Tudo isso era legal, e eu já tinha feito várias vezes – e, talvez, faça todas as vezes em que for. Mas tinha começado a descobrir uma cidade além da superfície, e que te permitia fazer isso. Permitia tanto que era como se pedisse para você guardar o mapa e só deixá-la te levar. Que desperdício é estar em Veneza e olhar para qualquer coisa que não seja a cidade.

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Sob o Sol do Veneto

Da última vez que fomos para Veneza, antes da mudança para Londres, falei para o meu marido que gostaria de passar um tempo lá. Alguns meses, como um período sabático. Aquela fantasia meio Sob O Sol da Toscana, só que do Veneto; meio Comer, Rezar, Amar, mas Andar.

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Só assim, eu teria tempo de conhecer cada ruazinha, cada esquina, cada marca na parede, cada loja de artigianato. Além disso, viver um recorte minúsculo no tempo de uma cidade de 1600 anos, tentando ver sombras de todas as histórias que já aconteceram ali. Toda a Itália tem história espalhada por todo canto, mas, em Veneza, parece que todos os anos acontecem ao mesmo tempo.

Gostaria de vivenciar a água como protagonista da cidade, não algo que sai de um tubo, mas que a gente tem que pedir licença pra passar. Saber qual é o mercado mais perto e a melhor forma de chegar nele, com tantas pontes que levam nada a lugar nenhum e ruas que terminam num canal. Chamar o dono do bar pelo nome e ele me cumprimentar de volta. Tomar Spritz, comer chicchetti e ficar com o dente todo engordurado de baccalà mantecato.

À noite, andar no escuro, no silêncio. Respirar baixinho e andar devagar para não incomodar a cidade – Veneza é muito silenciosa. Na falta de outro palavra, é um silêncio quase sagrado. Não dá para falar alto lá.

Eu aprenderia a me divertir sem plateia em Veneza. Me jogaria num canal, se não pagasse multa. Alugaria um barco e aprenderia a pilotar na marra até as ilhas vizinhas. Pediria para os gondoleiros que fazem isso há gerações me ensinarem a remar. Eu ouviria os velhinhos reclamarem dos turistas e veria turistas com os olhos brilhando por realizar o sonho de conhecer Veneza.

Veneza não é uma cidade que dá para passear. Não dá para tratá-la como se fosse só mais uma cidade no seu roteiro, e muito menos ter hora de ir embora. Afinal, todo o tempo do mundo, os 1600 anos e alguns dias, não são suficientes para conhecer e amar Veneza. O mais perto disso que dá para chegar é passar por ela, dividir pelo menos um dos mais de 584.000 dias, e passar a vida imaginando como seria não precisar ir embora.

Veneza é mágica, é emocionante, é sol e sombra, quente e frio, colorido e desbotado, e não há nada como ela no mundo. Mas você tem que estar disposta e disposto a descobrir (e, de preferência, com sapatos confortáveis). Do contrário, é um lugar bonito para tirar fotos.

Em outras palavras, Veneza SEMPRE é uma boa ideia.

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Giovana Penatti

Giovana Penatti

Giovana tem 30 anos e é jornalista. Mal pode esperar pela terça-feira à tarde na qual estará tomando um drink numa praia no Mar Mediterrâneo rindo muito de tudo isso. Enquanto isso, escreve sobre viagem e morar no exterior por aqui!