A vontade de sumir e o ano de 2020

A vontade de sumir e o ano de 2020

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No ano passado, lá por fevereiro de 2019, eu quis dar uma sumida.

Estava estressada, cansada, longe da minha família e dos meus amigos enquanto o meu processo de cidadania não era concluído – e nem tinha lá muito prazo para ser… – e isso tudo ocupou a minha mente e minha saúde mental de uma forma que, hoje, eu entendo que foi uma necessidade de literalmente fugir dessa situação.

Então, eu entrei num trem, na verdade em vários trens, e passei mais ou menos um mês viajando pela Itália.

Fui para Florença e me frustrei por não poder pagar os museus que supostamente me deixariam inebriada por tanta beleza, aluguei um carro em Siena e passei um dia todinho dirigindo nas estradas cheias de curvas da Toscana, andei até os joelhos incharem em Roma e me senti sobrecarregada com todas as coisas que nunca saberei, e fui parar em um agriturismo na Umbria.

Leia também: Manual prático de como viajar pela Itália de trem

Era um lugar gerenciado por uma família, com muitos problemas de administração mas muito acolhedor e cheio de voluntários do mundo todo que ajudavam nas tarefas do dia a dia, como colocar as ovelhas pra pastar, contar as galinhas no fim do dia para garantir que nenhuma tinha voado além do alambrado e costurar fantasias medievais para o festival de inverno.

Como eu era a única que sabia mexer numa máquina de costura, fiquei com essa tarefa a maior parte do tempo. Mas também descobri que ovelhas são bichos enormes e muito malvados e bodes, por outro lado, são super tranquilos.

A gente trabalhava de manhã e tinha o resto do dia livre, além de um dia de descanso por semana. De tarde, costumávamos sair para fazer caminhadas na região: perdi a conta de quantas vezes fui até San Venanzo, uma cidadezinha de 2,2 mil habitantes que, bom, não tem nada pra fazer, mas tem um embutido chamado Sella di San Venanzo que faz sucesso, se você gosta desse tipo de carne.

Também cometemos o erro crasso de descer uma colina e subir outra até Poggio Aquilone, uma vila bem medievalzinha onde vivem apenas 120 pessoas, porque depois tivemos que novamente descer e subir novamente quando já era noite. Mais surpreendente ainda foi visitar Rotecastello, outra vilinha pertencente a San Venanzo, que tem DEZESSETE habitantes e parece saída da Disney ou do Projac.

Fiquei 20 dias lá. Foi um período muito silencioso, apesar de passar o dia conversando com meus colegas e, no fundo, ter pouco tempo totalmente sozinha. Mas me lembro de uma sensação de precipício e de reconstrução. Me sentava na beira do terreno e olhava as montanhas próximas, com o vento gelado batendo no rosto. Fechava os olhos e não sentia absolutamente nada.

O tempo passava como se fosse o maior esforço do mundo, e eu não me mexia para não distrai-lo. Meu café ficou gelado rápido demais, uma vida inteira passou, um carneiro se afogou na piscina e passamos o dia todo de luto. Teve um vestido de casamento, um pão morbidissimo, como dizem aqui, a noite de crepes franceses, “A Vida é Bela” em DVD, e eu simplesmente não conseguia me mexer.

Comecei a sentir o contrário do que eu buscava: em vez de sumir, eu estava existindo, com cada pedaço de mim voltando para o lugar.

E, então, se passaram os 20 dias e eu voltei pra casa.

Agora, já faz mais de um ano. Eu moro de novo na Itália, na cidade que escolhi. Neste momento, acho que posso dizer que tenho praticamente tudo que eu queria. E estou com a mesma vontade que tive em fevereiro do ano passado: preciso sumir.

Na Itália, as viagens estão liberadas. Depois de quase dois meses de quarentena, aos poucos as fronteiras internas foram se abrindo e, há algumas semanas, já podemos ir de uma região para outra. O coronavírus ainda existe e está entre nós, mas o perigo é menor e, por isso, podemos ter certas liberdades como essa.

Mas, ao contrário do ano passado, eu não quero viajar. Quer dizer, quero, mas não acho que isso vai trazer a solução que eu busco.

Leia também: Como será o verão na Itália em 2020: a reabertura das praias

Passei mais de um mês viajando para ver lugares novos, conhecer novos sabores, ouvir sotaques diferentes, ver que existe mais mundo que a minha existência – e, num país em que você literalmente pode tropeçar em ruínas, a sensação de grão de areia é garantida.

Em 2020, no entanto, não dá pra fugir da aflição.

Estamos exacerbados, tendo dificuldade de nos concentrar, nos perguntando qual o sentido de tudo isso, querendo encontrar o trânsito astrológico responsável. Tem gente que há meses não põe o pé fora de casa ou abraça seus amigos, enquanto outras pessoas sequer ficaram mais de 12 horas sem sair. Tentamos criar novos hábitos, descobrimos novos hobbies, nos frustramos e choramos no chuveiro do nada. Celebramos aniversário por Zoom e até criamos a expressão “novo normal” para tentar achar algo de normal nisso tudo. Temos muita, mas muita paciência enquanto repetimos que isso vai passar, mas também queremos quebrar o nariz de quem fala isso como forma de cobrança que, de fato, algo esteja normal.

A vontade de sumir, em 2020, não tem a ver com o sonho de ser a Julia Roberts em “Comer, Rezar, Amar” e gastar um dinheiro que sequer tenho para ver como o mundo é bonito. Fugir da realidade é a vontade de ir para um lugar onde a pandemia não existe, mandar o “novo normal” pras cucuias e viver o velho normal, o normal normal.

Mas esse lugar também não existe.

Me lembro da minha escapada de 2019 e sei que, hoje, ela não aconteceria do mesmo jeito. Penso nas viagens que quero fazer em breve e também sei que não serão como eu espero: mesmo que, aqui, possamos circular ao ar livre sem máscara e sair de casa para ir onde quisermos, não podemos deixar de estar atentos, limpar sempre as mãos e manter o distanciamento. Podemos ser “livres” nos espaços permitidos pelo vírus, o que não é ser livre de verdade.

Vai passar? Provavelmente. Não sou tão otimista quanto ao “quando”, mas tenho esperança de poder voltar ao Brasil em algum momento de 2021, quem sabe.

Até lá, não sei até onde consigo me acostumar a conviver com o corona. Não sei quantas experiências serão impactadas e quantas coisas deixarei de fazer sem sequer perceber. Só sei de uma coisa: em 2020, não dá pra sumir.

A vontade de sumir e o ano de 2020

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Giovana Penatti

Oi 🙂 Meu nome é Giovana, sou jornalista e criei o Beijo e Ciao para falar sobre viagens: dicas de passeios, lugares incríveis, experiências transformadoras e as dores e alegrias de morar fora! Originalmente, sou de Piracicaba-SP. Hoje, moro na Itália. Para saber mais sobre o blog e entrar em contato, clique aqui!

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