Respondendo Cartas para Julieta: como e participar do Club di Giulietta em Verona

Respondendo Cartas para Julieta: como é participar do Club di Giulietta em Verona

Já falei (mal) aqui da Casa di Giulietta, em Verona, é provavelmente um dos piores pontos turísticos da Itália: é lotado, sujo, caro e que não significa lá muita coisa.

Paralelamente a esse caos turístico, há uma associação de voluntários que trabalha para manter a magia viva de outra forma. O Club di Giulietta, fundado em 1972 por Giulio Tamassia, é responsável por dar ouvidos a milhares de cartas enviadas de todo o mundo. São, essencialmente, cartas de amor, que chegam de diversas formas: de pessoas pedindo a bênção a um relacionamento, tentando superar um fim até desejando engravidar ou passando por um luto.

Mas, com um pouco de sorte e paciência, alguém pode ler e enviar uma resposta. É aí que entram as secretárias de Julieta: pessoas que dedicam algumas horas de suas visitas a Verona para ler os relatos e redigir respostas, na maioria das vezes assinando como a própria Julieta.

julieta munique flores
A estátua da Julieta em Munique recebe flores dos visitantes

Participei do Club de Giulietta em uma manhã nublada de garoa fina. Havia acabado de chegar em Verona, depois de três horas de trem e cerca de 40 minutos de bicicleta, porque sempre me perco nas cidades medievais e suas ruas tortuosas. O lugar indicado no email de confirmação também não é fácil de encontrar: fica um pequeno pátio com vários prédios e nenhuma sinalização. Demorei alguns minutos para encontrar a porta certa.

“Você sabe onde fica o Club de Giulietta?”, me perguntou uma garota loira, de cabelos compridos, casaco vermelho e uma botinha de couro com sotaque russo. Era Julia, que também estava ali para responder cartas de amor na véspera de seu aniversário de 22 anos.

Entramos juntas numa sala simples, com duas mesas com computadores aos lados e uma longa ao fundo, onde nos sentamos para responder as cartas. Atrás dessa mesa, ao longo da parede toda, há pastas repletas de correspondências: todas as enviadas para o Club de Giulietta são guardadas, e o clube recebe mais de 5 mil ao ano.

Ao redor, em toda a sala, há todo tipo de referências ao romance de Shakespeare: ilustrações, maquetes, figurinos, pinturas. Quase me senti mal por achar um pouco estranha toda essa romantização de Romeu e Julieta (é um romance que dura três dias! Eles são adolescentes! Todo mundo morre no final!), visto que estava provavelmente no lugar onde ele é mais valorizado no mundo.

É tanta carta que até vira decoração

Mas mantive minhas opiniões para mim; afinal, independente disso, as pessoas enviam cartas para o Club di Giulietta por motivos bem mais reais do que o casal mais famoso de Verona. As mensagens, sem um destinatário real, são desabafos, relatos solitários que, talvez, cumpram seu papel simplesmente por existirem.

 

Fomos recebidas por Elena, que coordena e orienta as voluntárias que chegam do mundo todo e responde minhas perguntas imbecis sobre como devemos escrever as cartas. Ela fala ao menos três idiomas e está no Club di Giulietta todos os dias das 10 da manhã à uma da tarde.

Depois disso, vai para seu trabalho normal; todo mundo que faz parte do Club di Giulietta, das pessoas que respondem as cartas para ter uma história para contar ao pessoal da organização, não ganha nada por fazer isso. Até mesmo a filha do criador do clube, Giovanna, faz o trabalho por amor. Entre as cartas em português que li, uma delas era endereçada a Giovanna, autorizando a publicação da carta original em um livro que reuniria algumas das mais interessantes recebidas.

Elena entregou para mim, Julia e Viktoria, a au pair alemã que chegou pouco depois, caixas repletas de envelopes de todos os tamanhos, com um coração de madeira na frente escrito o idioma das cartas. “Como vocês falam idiomas que não falamos, é melhor se puderem responder neles”, pediu, rindo e entregando que português, russo e alemão não estão entre as três línguas que fala.

O trabalho, em si, é simples: basta ler as cartas, escrever respostas nos papeis timbrados do Club di Giulietta, anotar seu nome e o tema em inglês no topo da carta para que eles cataloguem (“coração partido”, “benção”, “ajuda geral” e “luto” foram alguns dos que escrevi), juntar tudo em um envelope e partir para o próximo.

A expectativa para o que íamos ler era grande. Todo mundo quer encontrar a carta que está aguardando uma resposta há mais de 40 anos, como no filme Cartas para Julieta, mas não tem nada tão antigo. O Clube recebe voluntárias todos os dias; na alta temporada, Elena explica, é preciso recusar algumas ofertas de ajuda porque não há cadeiras o suficiente para todas. Na minha caixa, a que aguardava há mais tempo era do fim de 2017; demorou cerca de um ano e meio para receber sua resposta.

O máximo que conseguimos encontrar são histórias emocionantes e, confesso, boa parte da emoção vem do fato de estarmos onde estamos, fazendo o que estamos fazendo. “Você acostuma”, avisa a coordenadora quando Julia soltou uma exclamação ao ler sua primeira carta.

De fato, você acostuma a ler as histórias, ainda mais tantas e em tão pouco tempo. O tempo de voluntariado é o mesmo que o Clube fica aberto e, quanto mais rápido você responder, mais cartas poderá ler. Não é necessário responder todas; na caixinha das recebidas em português, por exemplo, havia dezenas enviadas por crianças por conta de um trabalho na escola. A primeira que li era de um garoto dizendo que queria um cachorro, mas sua mãe havia dito que só adotariam um quando ela se aposentasse. Em outra, um menino pedia um PlayStation 4, como se Julieta fosse o Papai Noel.

Salvo essas duas, a maioria das cartas que li foram enviadas por garotas ou mulheres. No primeiro grupo, lembro de uma que reclamava que não conseguia sentir nada por ninguém e perguntava para Julieta se o amor é real – logo para Julieta, que se suicidou por amor aos 13 anos. Outra era de uma garota que estava apaixonada pelo melhor amigo, mas tinha medo de se declarar e perder a amizade e acreditava que nunca poderia ser feliz por causa disso.

Já entre as mulheres adultas, os dramas eram um pouco mais complicados e as cartas tendiam a ser mais difíceis de responder com “siga o seu coração” ou “o amor existe e é lindo”. Duas eram particularmente tocantes.

Uma vinha de uma mulher de quarenta e poucos anos que engravidou muito jovem e dedicou a vida toda a cuidar da família. Aproveitando a viagem da filha a Verona para enviar uma carta para Julieta, ela contava que se sentia frustrada pois não tinha nenhuma conquista pessoal ou sonho. Ela dizia, numa letra apressada, que queria que sua família tivesse orgulho dela, mas sentia muito medo de tentar fazer qualquer coisa além de sua rotina.

A outra, escrita em português de Portugal, era curtinha e enviada por uma moça que estava visitando Verona com seu marido. Ela contava que tinha sofrido um aborto no ano anterior e, apesar de sonhar em ser mãe, não tinha certeza se poderia conquistá-lo, porque tinha medo de passar novamente pela perda de um filho antes mesmo de segurá-lo em seus braços.

Não há um manual de como responder às cartas e eu não me sinto segura o suficiente para dar conselhos tão sérios para desconhecidas em busca de alguma luz. Espera-se, no geral, que as secretárias ajam com cortesia e bom senso. Portanto, as cartas enviadas de volta têm mais a função de confortar e fazer o remetente se sentir ouvido do que, de fato, resolver seus problemas. Ainda assim, é impossível não se sensibilizar com algumas das histórias – inclusive as de adolescentes chorando pelo primeiro amor; quem não foi essa garota em algum momento, afinal? – e articular ao máximo sua empatia e vocabulário para tentar minimizar as dificuldades de alguém que você sequer conhece.

Nas três horas que fiquei no Club di Giulietta, perdi a conta de quantas cartas respondi, mas estimo que tenha sido umas dez ou doze, e deixei várias para a próxima voluntária que falasse português. Já Julia, que participou dois dias seguidos, provavelmente zerou as cartas russas e deve ter passado algum momento da manhã seguinte ajudando a diminuir o volume de cartas na caixa com o coraçãozinho de madeira escrito “English”. É, como pode imaginar, a mais cheia, mas não a única com cartas nesse idioma: eu mesma respondi várias na caixa de português que estavam escritas em inglês.

Como participar

Participar do Club di Giulietta não é uma experiência tão fácil de conquistar em Verona: é preciso um pouco de planejamento.

O primeiro passo é enviar uma mensagem pelo site, explicando por quê você quer participar do Clube e as datas da sua viagem – isso é importante porque, às vezes, é necessário fazer um remanejamento para ele dar conta de receber todos os voluntários. Então, é só esperar a resposta; a minha demorou umas duas semanas, mas imagino que, dependendo da demanda, isso possa variar.

Por fim, passar a manhã lendo histórias de outras pessoas que gentilmente as compartilham com estranhos no Club di Giulietta também permite compartilhar algumas horas de sua própria história com pessoas do mundo todo. E essa foi uma das partes mais preciosas da manhã: ver como a paixão por histórias de amor e a disposição de se deixar participar delas, mesmo que só por alguns parágrafos, é universal.

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Giovana Penatti

Oi 🙂 Meu nome é Giovana, sou jornalista e criei o blog para falar de viagens, da vida viajando, da falta que faz viajar! Originalmente, sou de Piracicaba-SP. Hoje, moro na Itália. Sou formada em jornalismo, tenho um cachorro chamado Bernardo, gosto de pizza e roo unhas o tempo todo. Para saber mais sobre o blog e entrar em contato, clique aqui!

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