Subindo a Pedra da Macela, em Cunha: uma licao de resiliencia

Subindo a Pedra da Macela, em Cunha: uma lição de resiliência

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Subir a Pedra da Macela, em Cunha, está entre os passeios “obrigatórios” da cidade. Ela faz parte do Parque Nacional da Serra da Bocaina e tem quase dois mil metros de altura. Lá do alto, há uma vista incrível da baía de Paraty e é possível enxergar até Ilha Grande. A trilha é de 5km e em um caminho todo pavimentado. Ou seja, é relativamente tranquila de fazer, com uma recompensa grande no fim.

foto: vamostrilhar.com.br/Gabriel Tarso
SÉRIO. (foto: vamostrilhar.com.br/Gabriel Tarso)

Reservamos uma tarde de domingo para conhecer a Pedra da Macela. O dia todo seria dedicado a atividades na natureza: começamos visitando cachoeiras, e, depois do almoço, fomos até ela.

Mas tivemos um obstáculo inesperado: enquanto comíamos, o clima começou a fechar. Em pouco tempo, o céu da estrada que vai de Cunha a Paraty estava todo branco, sem definição alguma: uma neblina fortíssima apareceu e estacionou sobre a região.

Não desistimos, mesmo sabendo que provavelmente não seria possível ver nada. Havia um cisco de esperança: vai que a neblina está tão baixa que, lá no topo, ficaremos acima dela?

Talvez a gente não saiba como neblina funciona.

Expectativa (continue lendo para ver a realidade)

Como chegar na Pedra da Macela

Par chegar na Pedra da Macela, é necessário pegar uns 2o minutos de estrada de terra, que é a mesma que passa pela cervejaria Wolkenburg. Então, você dá de cara com um portão fechado que, se não estiver atento – ou disposto – pode indicar o fim do caminho para você, antes mesmo de começar. É que, a partir desse ponto, é necessário seguir a pé, passando por um mata burro que fica ao lado.

Deixamos o carro num recuo a alguns metros dali, peguei um galho comprido que estava encostado em uma árvore – claramente, tinha sido utilizado como bastão de caminhada por alguém – e começamos a subida.

Talvez você tenha muita experiência em subir montanhas, talvez não. A Pedra da Macela é amigável para quem está no segundo grupo, como eu, mas não deixa de ser um desafio. E, por isso, é importante que você não cometa o mesmo erro que cometi: subestimar a subida deixará tudo muito mais difícil.

A subida da Pedra da Macela

Logo que chegamos ao portão, uma família apareceu e passou pelo mata burro para subir (foi assim que vimos o mata burro, rs). Um dos membros estava até de chinelo! Por isso, pensamos que não deveria ser tão complicada. E, logo que iniciamos a caminhada, encontramos o mesmo grupo descendo; uni os pontos e pensei que, talvez, a medida fosse 2 mil metros acima do mar e a subida não fosse tão alta.

…Rapaz, eu acho que nunca na minha vida eu estive TÃO errada.

O início é tranquilo, pouco íngreme, e permite ir batendo papo e andando normalmente. Mas logo o caminho começa a inclinar e, a partir daí, é preciso ir com um pouco mais de calma.

Nós tivemos mais um percalço: a neblina intensa trouxe uma umidade forte ao ar e, às vezes, uma garoa fina. Então, a sensação térmica era de bastante frio e o pavimento, que tem muitas pedrinhas soltas, escorregava molhado sob os nossos pés, o que exigiu um esforço extra.

Sem qualquer visibilidade além da trilha – brincamos que parecia um mapa de videogame que ainda não foi destravado – , não conseguíamos, também, ter noção do quanto já tínhamos andado.

A coisa mais bonita que vimos na caminhada toda: essa teia cheia de gotículas de água!

Meu marido sofre todos os dias com a rinite e, por ser ciclista, estava muito bem preparado para a subida. Em meio à natureza, com um bom condicionamento, falava repetidamente sobre como estava respirando bem e caminhava sem problemas. Para ele, estar subindo a Pedra da Macela era uma experiência muito boa.

Para mim, o sedentarismo pegou forte. Mais de uma vez, me sentei e senti o coração bater na garganta, enquanto me forçava bocejos para respirar o suficiente. Minhas pernas doíam, meus braços não tinham forças.

Alguns minutos depois, me levantava e decidia continuar a caminhada. Como não dava para saber a altura em que estava, o que me motivou era pensar que, talvez, o fim estivesse na próxima curva.

“Olha as árvores ali no fundo. São as mais altas. Não tem mais nada depois. O fim é ali.”

Enganados pela neblina, pensamos estar perto do fim muito mais vezes do que gostaríamos. E, de fim em fim, seguimos a caminhada, cada vez mais íngreme, com os pés escorregando mais e mais, e eu cada vez mais cansada.

Até que, em certo ponto, eu desmontei.

Sentei no chão, praticamente uma queda, e uma frase saiu da minha boca sem que eu controlasse: “eu não consigo mais subir.”

Meu marido disse que ele também não iria e sentou do meu lado. Insisti que ele deveria ir e, na volta, me encontrar de novo para descermos; e ele insistiu que não me deixaria sozinha ali, perto de grandes perigos da selva como onças-pintadas, suçuaranas, urubus-reis e macacos-pregos, que provavelmente têm mais medo de gente do que a gente deles. (obs: não vimos nenhum desses animais, mas eles existem no PNSB!)

Quem me segue no Instagram já viu isso 😉 Clique na foto para seguir!

Desanimada e frustrada, peguei o celular para tentar me localizar geograficamente no Google Maps. Sabia que estaria sem sinal; a recepção é péssima na serra de Cunha e nem na pousada o 4G funcionava.

Mas o GPS, sim; e descobri que aquilo que eu pensava ser o caminho de carro marcado no mapa era, na verdade, toda a subida da Macela!

Faltava pouco. Tão pouco que, se eu desistisse nesse ponto, sentia que nunca mais me levaria a sério na vida. Me levantei, respirei fundo e firmei o pé por mais uns 200 metros de subida.

Pedra da Macela com neblina

Após a última curva, quando finalmente não havia mesmo mais árvore escondidas na neblina, demos de cara com… um portão fechado.

Mas foi um susto de segundos; há, ali mesmo, uma placa explicando onde ficam os mirantes. O primeiro ponto que fomos foi virando à esquerda, onde há uma pedra alta, que praticamente implora para ser escalada. De lá, pudemos ver, a uma altura ainda mais elevada, absolutamente nada.

Seguindo para o outro lado, passamos pela área de camping, normalmente usada por quem decide dormir lá e ver o sol nascer no mar (estava, como esperado, vazia). Nos sentimos vitoriosos ao ver a placa que celebra a conclusão da subida, mesmo sem ter a mínima ideia do quanto subimos. E, ao chegar nos mirantes, pudemos ver, de diversos ângulos, vários nada.

Paraty tá lá no fundo!

E a descida?

Depois de passar tempo o suficiente contemplando a neblina, chegou a hora da descida. Como era o final da tarde, o dia estava dando sinais de que não duraria muito mais, e a noite veio avançando rápida.

Não há nenhuma iluminação na Pedra da Macela. Imagino que, em noites de céu limpo, a lua se encarregue disso; mas não foi o nosso caso, então a descida teve que ser apressada. No finalzinho, o flash do celular quebrou o galho, para garantir que estávamos pisando no chão, e não nos sapos que começaram a aparecer.

Para mim, a descida foi mais fácil – a descer, todo sando ajuda. Já para o meu marido, foi mais penosa: ele reclamou de dores no joelho e nas costas.

Descobrimos depois, conversando com minha amiga Luana, que nos indicou o passeio (você já leu um texto dela aqui no blog, sobre trabalhar em cruzeiro!), que estávamos bastante desequipados: até os sapatos, que eu achava serem os certos, não eram. Fomos com tênis de caminhada, já que a trilha era pavimentada, mas o correto seria usar aquelas botas feitas para trilha, mesmo. O solado delas parece um pneu e, com certeza, teria sido bem mais fácil…

Vale a pena subir a Pedra da Macela?

Mesmo com a neblina, subir a Pedra da Macela não foi um passeio que nos arrependemos. Também não acho que seja obrigatório para quem vai a Cunha; exige muito do físico e nem todo mundo tem condições – ou vontade – de encarar.

Existe algo muito íntimo e pessoal em fazer um passeio desses, mesmo sem a recompensa da vista tão famosa no fim. Tem todo um contexto de superação, de acreditar em si mesmo, de ter paciência passo após passo, de respirar fundo e saber que um segundo vem após o outro…

Talvez tenha sido um grande – enorme, gigante, de 2 mil metros de altura – teste para a minha ansiedade. Não saí curada, mas passei por ele e sobrevivi!

Além disso, fomos a Cunha para a nossa lua de mel; então, estávamos praticamente recém-casados (apesar de termos demorado dois meses para fazê-la, rs).  Arrisco dizer que a Pedra da Macela foi nosso primeiro grande desafio como casal oficializado, algo que superamos juntos, nos ajudando mutuamente – ele, me incentivando a subir quando eu quis desistir; eu, espantando os sapos na volta para que ele os evitasse (tenho medo de sapo, mas meu marido tem uma verdadeira fobia!). Parece besteira, mas tenho a impressão de que enfrentar toda essa jornada nos deixou mais unidos!

Mas a gente queria, sim, ter visto o por do sol lá de cima. Agora que já sabemos que conseguimos, fica para a próxima!

Vídeo

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  • Sobre

Giovana Penatti

Oi 🙂 Meu nome é Giovana, sou jornalista e criei o Beijo e Ciao para falar sobre viagens: dicas de passeios, lugares incríveis, experiências transformadoras e as dores e alegrias de morar fora! Originalmente, sou de Piracicaba-SP. Hoje, moro na Itália. Para saber mais sobre o blog e entrar em contato, clique aqui!

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